Dentro de um Audi, Song Song passeia com a mãe. A agitação que ela observa pela janela nada se parece com a tranquilidade e o conforto de dentro do carro. Do lado de fora, uma menina simpática oferece-lhe uma rosa. A pequena Gatinha, como é chamada pelo avô adotivo, apresenta dificuldade para se locomover, está suja, mas ainda tem um sorriso no rosto e uma boneca quebrada nos braços. Duas meninas. Dois caminhos diferentes.Em Crianças Invisíveis, John Woo opta pelo contraste para retratar a realidade da infância na China. Um paralelo original, no qual é possível analisar o choque que existe entre a ascendência econômica do país, com toda a desigualdade anexada, e uma cultura enraizada na exclusão e no preconceito.
É importante lembrar que em 1979, uma rígida lei de controle de Natalidade entrou em vigor na China. A partir de então, cada casal só pode gerar apenas herdeiro. Essa atitude resultou em forte efeito colateral: a preferência pelo sexo masculino gerou uma onda de abandono e morte de meninas recém-nascidas. Hoje, já são dezoito milhões de homens a mais.
Dois são os fatores que explicam esse quadro. O primeiro está relacionado com a própria tradição chinesa já que o homem é responsável pelos seus pais na velhice. Cabe a ele cuidar dos idosos. Logo, ter uma filha significa ser abandonado no futuro.
O segundo fator parte da necessidade econômica, principalmente das famílias camponesas que precisam de mão-de-obra para o trabalho pesado.
Intrigante, o filme realmente nos faz refletir com seus personagens: a Gatinha, uma recém-nascida desprezada e jogada na rua, que mesmo sendo do sexo feminino cuida do seu avô adotivo com muito amor. E Song Song, a menina rica e infeliz por ver seu pai abandonar a casa por conta do herdeiro homem, fruto de um relacionamento extraconjugal.
Exploração infantil e violência marcam a história que envolve, fascina e revolta. É o retrato de uma China cuja economia cresce em velocidade recorde a cada ano, mas que encontra grandes dificuldades no desenvolvimento social.
A realidade fere a todos: tanto os que estão a pé, sendo explorados, quanto os que estão no conforto e na tranquilidade interna de um Audi.
* Hanna Estevam e Cidnéia de Paula, Outubro, 2008.
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